Para relembrar da história dos seus maridos, que estão entre os mais de 549 mil mortos pela covid-19 no Brasil, duas mulheres erguiam hoje seus cartazes na manifestação contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), na avenida Paulista, em São Paulo.

“Bolsonaro matou meu marido”, dizia a mensagem exibida pela professora Flávia Rossi de Melo, de 33 anos. “Bolsonaro matou o amor da minha vida”, lia-se no recado escrito pela auxiliar de saúde Débora Chagas Handorffer, 36. Elas se conheceram em um grupo de mulheres de oposição ao governo federal na internet e decidiram participar do ato lado a lado.

Casados por quatro anos, Flávia e Douglas de Melo, 37, que moravam em Santo André, no ABC, queriam ser pais – Flávia planejava engravidar após a pandemia. Não deu tempo. Em isolamento social desde o começo do ano passado, quando o vírus se espalhou pelo país, eles só saíram de casa para uma consulta médica, no começo de março deste ano. Na semana seguinte, começaram a sentir sintomas compatíveis com a covid. Com o agravamento da doença, Douglas ficou intubado por um mês e morreu no dia 28 de abril, em decorrência de uma parada cardiorrespiratória.

“Tá muito difícil. Estou com depressão e à base de remédios. Mas encontrei uma forma de lutar e de fazer algo por ele. Decidi participar da manifestação porque queria pedir justiça pelo meu marido e pelos mais de 549 mil mortos no país. A vida dele foi trocada por corrupção e pelos interesses de um presidente negacionista”, lamenta Flávia.

Flávia relembra da curta despedida nos últimos dias de vida do marido. Como não podia vê-lo pessoalmente, ela conseguiu convencer uma médica a fazer uma chamada de vídeo de apenas dois minutos enquanto ele estava intubado. “Só pude dizer que amava muito ele. Mas queria poder ver ou tocar nele. Não teve despedida”, conta.

24.jul.2021 - Os maridos de Flávia Rossi de Melo (à esquerda) e de Débora Chagas Handorffer (à direita), que participaram de ato contra o presidente Jair Bolsonaro em São Paulo, morreram após contraírem o coronavírus durante a pandemia - Herculano Barreto Filho/UOL - Herculano Barreto Filho/UOL
Os maridos de Flávia Rossi de Melo (à esquerda) e de Débora Chagas Handorffer (à direita), que participaram de ato contra o presidente Jair Bolsonaro em São Paulo, morreram após contraírem o coronavírus durante a pandemia – Foto:  Herculano Barreto Filho/UOL

 

‘Não tem prazo para o luto’

O cartaz trazido para a manifestação pela auxiliar de saúde Débora Chagas Handorffer exibia a data de nascimento e de morte do marido Ronaldo Duarte, que faleceu em 1º de maio de 2020 – um dia antes de completar 36 anos. Na época, ele não pôde nem mesmo ser internado em uma UTI por falta de vagas.

“O que mais doeu foi ele ter morrido sem saber o quanto eu orei pela vida dele. Ainda sofro muito. Não tem prazo para o luto”, diz.

“Não pude sepultar o meu marido. O que posso fazer é lutar por ele até que isso acabe. A única forma de dar continuidade à missão do meu marido é seguir lutando para que outras pessoas não passem pelo que estou passando”, diz Débora.

Débora criticou Bolsonaro por ter se referido ao vírus como “gripezinha”, por desestimular o uso de máscaras e por ter convocado a população a participar de manifestações favoráveis a ele. “Uma semana antes da morte dele, o Bolsonaro convocou uma manifestação que levou milhares de pessoas às ruas só para alimentar o ego dele.

Naquela época, ele chamava o coronavírus de ‘gripezinha’ e falava para que as pessoas não usassem máscara. Milhares de vidas foram embora por causa dessa postura irresponsável”, critica.

 

Fonte: UOL
Foto: Herculano Barreto Filho/UOL